Do consultório à roça: a transição do dentista
Osni de Azevedo Ramos, um dentista que enfrentou as consequências de uma doença ocupacional, decidiu mudar completamente sua trajetória profissional. Em 2019, ele começou a transformar pastos de uma antiga fazenda dedicada à pecuária, de propriedade de seu sogro, em uma plantação de cacau associada ao cultivo de açaí. Essa transição ocorreu no município de Castanhal, localizado na região nordeste do Pará, um território de riqueza natural e potencial agrícola.
O impulso para a escolha do cacau veio de um técnico da Ceplac, que é a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, um órgão do Ministério da Agricultura voltado para o desenvolvimento sustentável da cultura do cacau. Observando a interdependência entre as plantas, Osni decidiu também incorporar o açaí, permitindo que ambas as culturas prosperassem juntas.
Com essa decisão, ele buscava não apenas diversificar a produção, mas também garantir uma renda satisfatória, aproveitando os ciclos de maturação distintos das duas culturas. Assim, ele poderia contar com o retorno financeiro do cacau em um semestre e do açaí em outro.

Sustentabilidade e lucros: a nova era do cacau
O projeto do dentista é inteiramente irrigado, utilizando mangueiras suspensas, o que garante uma produção eficiente e rica. Para ser mais exato, cada pé de cacau produz em média 1,7 quilo, resultando em cerca de 1.700 quilos por hectare. Quanto ao açaí, a produtividade chega a impressionantes 14 toneladas por hectare.
A intenção de Osni sempre foi focar na produção de cacau fermentado, notando que muitos produtores comercializavam o cacau sem esse processo. Após três anos de plantação, ele enviou uma amostra de seu cacau para um festival estadual, onde conquistou medalha de ouro por sua qualidade. Esse reconhecimento elevou sua produção e alavancou a visibilidade do seu cacau no mercado.
A parceria com a comunidade quilombola
Além do seu próprio cultivo, Osni buscou colaborar com a comunidade quilombola vizinha à Fazenda Monte Castelo, estabelecendo uma parceria importante. Juntos, realizaram um teste de plantio adensado de cacau com foco na produtividade, um aspecto vital para o sucesso sustentável da agricultura.
Ele forneceu 5.000 mudas de cacau e ofereceu treinamento aos membros da comunidade, destacando a importância de cultivar o cacau sob tutoria em estacas. A relação é tão estreita que muitos dos funcionários da fazenda são oriundos dessa comunidade, promovendo um elo forte e colaborativo.
Inovações no cultivo de cacau e açaí
A plantação de cacau e açaí de Osni atualmente ocupa 22 hectares, com planos de expandir ainda mais, adicionando mais 10 hectares a cada ano. Para propiciar essa expansão, empregou investimentos substanciais, que variam entre R$ 80 mil e R$ 90 mil por hectare. O objetivo final é cobrir 100 dos 400 hectares da fazenda, com a intenção de integrar árvores de grande porte, como andiroba e castanha-do-Pará, ao consórcio de culturas. Ele espera aumentar a produção total de amêndoas, passando de 32 para 35 toneladas este ano.
A importância da irrigação na produção agrícola
A irrigação é um dos pilares fundamentais na produção de cacau e açaí, uma vez que garante que as plantas recebam a quantidade adequada de água necessária para o seu desenvolvimento. Na fazenda, a irrigação é realizada com cuidado, visando maximizar a eficiência do uso da água e promover um crescimento robusto e saudável das culturas.
Desafios e conquistas do cultivo agroflorestal
Osni também se deparou com desafios significativos durante sua jornada no cultivo agroflorestal. Apesar dos obstáculos, ele soube aproveitar a experiência adquirida ao longo do tempo, utilizando os dejetos da pecuária, que representam 70% da adubação de suas plantações. Cada pé de cacau recebe em média 60 kg de adubo orgânico anualmente, um reflexo de sua visão sustentável de manejo agrícola.
Como a agroindústria está mudando o jogo
Para expandir seu negócio, Osni decidiu investir em uma pequena agroindústria fora da propriedade da fazenda, devido a limitações no fornecimento de energia. Essa agroindústria se dedica ao processamento de 30% do cacau fino, resultando na produção de chocolate amazônico na forma de tree-to-bar, que carrega a marca Caupé. Essa iniciativa não apenas valoriza o produto local, mas também representa um passo importante para a economia da região.
O beneficiamento do cacau em chocolate de qualidade
O processo de beneficiamento do cacau é realizado com atenção ao detalhe. A quebra dos frutos é feita por meio de máquinas, enquanto a qualidade das amêndoas é assegurada através da fermentação em cochos de madeira e tonéis plásticos. Essa fermentação é crucial para garantir a excelência e a rica profundidade de sabor dos chocolates que saem da sua agroindústria.
O futuro da agricultura: entre tradição e inovação
Osni acredita que o futuro da agricultura na região está intrinsecamente ligado à capacidade de inovar ao mesmo tempo em que se respeita as tradições. Ele está sempre em busca de novas técnicas e práticas que possam agregar valor ao que já se faz tradicionalmente. Essa mentalidade de inovação contínua permitirá que ele e sua propriedade se destaquem em um mercado cada vez mais competitivo.
A busca pela produção orgânica no cultivo
No final deste ano, Osni planeja migrar completamente para a produção 100% orgânica, um passo que não apenas atenderá a demanda crescente por alimentos orgânicos, mas também contribuirá para a preservação do meio ambiente. Sua determinação em aprimorar seus métodos de cultivo é um testemunho de seu compromisso com a sustentabilidade e a qualidade.
Com um projeto de cultivo que respeita o meio ambiente e traz benefícios para a comunidade, Osni de Azevedo Ramos se destaca como um exemplo inspirador de como a agricultura pode se transformar em uma atividade próspera e sustentável.


